sábado, 24 de março de 2012

Porto Alegre

Na saída de Treinta y Tres há um bom posto de combustível. Saímos do hotel pulgueiro carregando nossas bagagens, fomos até o borracheiro, carregamos a moto e fomos tomar café no tal posto.

Uma grande quantidade de motos, gente que iria para o encontro de motos em São Lourenço, ou algo assim.

Até Jaguarão são 130 ou 140 km. Chegando lá resolvemos dar uma olhada nas lojas, freeshops. Nem sempre a gente acerta mesmo. Não só esse consumismo não me estimula, como, muito ao contrário, me deixa absolutamente incomodado. A única coisa que poderia me interessar seria um iPad. Entrei em várias lojas e seu preço estava por volta de 1.000 dólares, modelo antigo. Nos EUA um novo custa 500 dólares. Liguei para o Guto e atendeu a Carol, em São Paulo. Em 30 segundos descobri que não deveria comprar. Perdi uma hora naquela cidade antes de partir, sem comprar nada.

A última fronteira, em Rio Branco, a mais fácil. A simpática senhora da imigração somente pegou meu papel de entrada pelo BuqueBus e me desejou boa viagem. Não mais que 10 segundos. A polícia uruguaia é um exemplo, como a do Chile. São honestos. Corrupção é uma raridade.

Argentina e Brasil deveriam seguir seus exemplos.

Mais e mais motos, todos se encaminhando para o tal encontro. Em uma parada para abastecimento conhecemos dois casais, um, brasileiro, placa do RJ, em uma BMW 1200 e outro, uruguaio, em uma Suzuki VStrom 1000. Alguns minutos de conversa e o cara com a placa do Rio se vangloriando que tinha ido até Vinha del Mar, no Chile. Fiquei quieto. Já estou cansado para conversas desnecessárias.

O Robson, que se mostrou um bom companheiro de viagem, administrador de postos de gasolina de uma rede que seu pai tem, ficou olhando e esperou a oportunidade para falar: "O meu parceiro está vindo de Ushuaia, Ruta 40 e Carretera Austral".

A conversa muda, as pessoas já olham diferente, baixam a crista, se interessam em saber das histórias, fazem perguntas sobre o vento, o frio, a excassez de combustível etc.

Não que o gaúcho, que mora no Rio, seja prepotente. A questão é que sempre há alguém que fez muito mais que a gente. Fico imaginando encontrar o Artur Albuquerque, o Ricardo Atacama, o Policarpo Jr e tantos outros que fizeram Ushuaia e Alaska, a turma dos Fazedores de Chuva etc.

Obs.: numa das fotos pode-se observar o protetor de manoplas quebrado no incidente de antes de ontem.














Treinta y Tres








Dormi apenas 4 horas em Colonia del Sacramento e peguei a estrada. Logo na saída da cidade, numa parte da rodovia que liga a Montevideo,  a Ruta 1 uruguaia, havia uma interrupção com obras na rodovia. O primeiro parado era uma moto, depois uma caminhonete e eu. Vi que a moto tinha placa do Brasil e encostei do lado. Era o Robson, de Osório, RS, em uma Kawasaki 1.000. Conversamos meio minuto e ele falou que iria me acompanhar.

Antes de pegar a Ruta 1 eu parei num posto Petrobras e comprei um mapa do Uruguai não só para colecionar como para ver um caminho que evitasse passar por Montevideo de novo. A cidade é linda, mas já a conheço de outros carnavais e há sempre um trânsito que incomoda.

Decidimos pegar a Ruta 11 e, depois, a Ruta 8. Na Ruta 11 passando por San Jose de Mayo e Canelones. Foi uma boa decisão. Cidades simpáticas no caminho e a Ruta 8 é ótima, um tráfego normal, não muito cheio e uma rodovia em ótimas condições.

Algumas das paisagens me lembraram quadros de Van Gogh, ou mesmo das paisagens que os impressionistas souberam tão bem pintar em sua técnica que nos coloca dentro de movimentos em tintas estáticas.

Uma frente fria estava nos acompanhando. Como estava muito cansado, a manhã foi muito improdutiva em km rodados. Parei um bocado de vezes para fotografar e em postos de combustível para tomar cafés e mais cafés.

Em determinado momento da ruta, vi um vendedor de doces e quinquilharias. Entre elas alguns pelegos. Parei. Já tinha visto algumas fotos de mototuristas com pelegos em cima dos bancos. Mike, um dos canadenses que fez a viagem em volta ao mundo, de 32.000 km, usava uma na sua BMW GS800 alugada em Santiago. Tinha comprado em Marrocos ou algum outro país do Norte da África. Naqueles dias de rípio brabo fiquei com a impressão que seria uma ótima opção para amenizar as horas e horas em cima da moto. Depois de negociar de 500 pesos para 380, o melhor que consegui, de R$ 50 para R$ 38, comprei o pelego e "pilchei" minha moto. Com um strep maior que tenho de backup ajustei a amarração e gostei um bocado da solução. Muito confortável. A única observação é que se a chuva chega você tem que parar e tirar o conforto.

No fim do dia, já escurecendo, chegamos na frente fria que seguia à nossa frente, não teve como evitar. Chuva, frio e noite. Hora de parar. A opção possível era Treinta y Tres. A cidade é relativamente simpática, mas um entroncamento de rodovias e onde todos param para ficar. Há três hotéis na cidade e alguns hostels. Na descida tivemos o mesmo problema, Carlos, Edmilson e eu, e achamos um hostel com ajuda de um vendedor de pneus.

Desta vez o cansaço não permitiu procurar mais. Como chovia não encontrava quem perguntar nas ruas. Os dois melhores hotéis fechados e fomos parar no pior dos três, bem no centro. Havia duas BMW GS 1200, com placa de São Paulo, estacionadas em frente, mas nunca vi seus pilotos.

Os quartos fediam a mofo. Arrumamos dois que compartilhavam um banheiro. Deixamos a bagagem por lá, liguei um ventilador velho que havia e saí para comer e tomar umas cervejas. A noite só seria possível por causa do cansaço acumulado e algumas cervejas para ajudar o sono.

Antes de sairmos para o jantar o dono do hotel nos sugeriu que procurássemos um lugar para deixar as motos porque ele não tinha estacionamento e não aconselhava que as deixássemos na praça. Achamos uma borracharia que aceitou guardar as motos, comemos uma parrillha e tomamos uns 5 litros de cerveja.

Nem quis saber do mofo, de banho, de nada. Caí na cama como uma pedra e consegui dormir umas 6 horas de bom sono. No dia seguinte, desafiando a sujeira do banheiro com minhas havaianas, tomei uma boa ducha e saí o mais cedo que pude daquele pulgueiro.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Colônia del Sacramento

Pois é, não fui até Montevideo. Quando cheguei no BuqueBus havia um erro na aquisição das passagens, minha e da moto, e tive que vir para Sacramento.

Mas...

Decidi subir de Rio Colorado para Buenos Aires por um caminho diferente da Ruta 3, que foi a opção de descida. Peguei a Ruta 33 e depois a 205. Dessa vez a escolha foi acertada. Somente 15 km a mais e uma paisagem bem melhor.

Quando estava a 180 km de Buenos Aires resolvi fazer hora num posto Shell com boa internet. A passagem era para às 23h59 e não queria pegar a hora do rush na megalópole.

Aí tive o maior susto da viagem. Já havia escurecido e o tráfego era relativamente intenso.

Ao ultrapassar um caminhão, depois de olhar que não havia carro na mão oposta, vinha um com as luzes apagadas.

O aperto foi tão grande que bati a mão esquerda no que imagino ser o espelho retrovisor do maldito imprudente. O protetor de manoplas da esquerda foi quebrado. Por um triz não terminei essa viagem de forma trágica.

Parei imediatamente para me recobrar do susto. As pernas tremiam e o coração foi parar na boca.

Fiz os últimos 100 km a menos de 90 km/h com um enorme desconforto.

Chegando na estação do BuqueBus, em Puerto Madero, vi que o plano de ir para Montevideo tinha furado. Arrumei uma alteração de passagens para Colônia de Sacramento e fui fazer a imigração. Realmente o fim do dia não estava dos melhores. A policial invocou que eu não tinha o papel de entrada em Futalefu/Esquel. Disse para ela que o policial de lá não tinha me dado , apesar de eu insistir algumas vezes. A policial estava invocada, não quis entender e me disse para procurar a supervisão de imigração, que eu deveria pagar uma multa etc.

Fui até a tal supervisão, me falaram que era uma multa de 100 pesos e eu disse que pagava, sem problema.

Pediram para eu contar por onde tinha entrado e a explicação foi longa.

- entrei em Buenos Aires na vinda, pelo BuqueBus
- saí na Terra do Fogo, para entrar na parte chilena da ilha
- entrei de novo na Terra do Fogo, depois de passar o pedaço chileno.
- saí na Terra do Fogo, quando fui para Punta Arenas
- entrei de novo quando voltei, depois de visitar Torres del Paine, caminho de El Calafate, para pegar a Ruta 40
- saí de novo em Los Antiguos, quando passei para o Chile para iniciar a Carretera Austral
- entrei de novo em Futalefu

Queria sair por Buenos Aires.

A outra mulher, a tal supervisora, pegou minha identidade e me mandou esperar. Depois de alguns minutos voltou com um papel impresso do sistema que confirmava todos os passos acima e me disse que eu não precisava pagar a tal multa.

Me deu a tal impressão e voltei para a primeira policial que ainda me encheu mais o saco resmungando um bocado. Como eu já estava cansado demais, deixei a mulher mal amada falando e fiquei com meus pensamentos em casa, que já estou quase chegando, só faltando pouco mais de 2000 km etc.

Cheguei em Colônia 03h00 e entrei no primeiro hotel que achei. Só consegui dormir às 04h00 e acordei às 07h00.

Daqui sigo até Pelotas, que não conheço, apesar de ter passado ao lado por umas 5 vezes.

Sem dirigir mais à noite. O susto de ontem foi suficiente.

Cruzei, no BuqueBus com 4 caras do Rio, de Jacarepaguá, em suas Harley Davidson. Estão voltando de um encontro de moto que houve em Mendoza.

Rio Colorado

Acordei antes dos galos e peguei a estrada para Buenos Aires. Muita distância para um só dia, então a idéia era rodar o máximo possível.

Logo de manhã comecei a ficar enfadado. Ano passado havia passado por este caminho e a repetição incomoda.

Decidi subir um pouco mais pela Ruta 40 e fui até Zapala.

Nem sempre acerto. Foram 180 km a mais e uma região sem muitos atrativos.

Em Neuquen mais atraso por falta de gasolina nos postos. Cidade enorme. Tive que esperar um caminhão descarregar para abastecer a moto. Enquanto isso o dono do posto veio conversar comigo. Também tem uma Transalp e fez uma viagem que deve ser muito interessante, pelo trajeto original da Ruta 40, indo mais ao norte. Me disse que tem que passar por fazendas, abrindo porteiras e cruzando rios sem pontes no caminho.

Cheguei em Rio Colorado já de noite, achei um bom e barato hotel de beira de estrada e pedi ao meu irmão para comprar uma passagem do BuqueBus de Buenos Aires para Montevideo.

Bariloche

Chegamos em Bariloche e fomos procurar um hotel. No centro de informações turísticas indicaram alguns, como também hostels. Escolhi um destes, uma casa de família umas 15 quadras do centro. Chegando lá as pessoas não estavam em casa e acabamos voltando e achando um hotel no centro.

Não conhecia Bariloche e nem pretendo voltar. Típica cidade para turistas tradicionais. Só fui até lá para me despedir dos amigos canadenses. Acabamos encontrando o Georgios, um grego que comprou uma BMW GS 1200 no México e está já a um ano e meio viajando na América.

Umas cervejas antes do jantar e uma despedida calorosa no saguão do hotel.

Esses cinco canadenses se tornaram bons amigos e temos planos deles virem para o Brasil e eu ir com a Ná para lá.

Quando eu for na viagem ao Alaska tenho certeza que encontrarei um bom apoio deles por lá.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Futalefu

Na verdade o título deste post deveria ser Trevelin, já na Argentina, onde dormimos.

Acordamos em Villa Amengual, tomamos um bom café, mas antes de partirmos Mike levou Paz para dar uma volta de moto. Essas pessoas nos tocaram fundo, tanto a Margarida e seu filho Juan, em Villa Cerro Castillo, quanto aqui. Gente muito simples, pousadas com banheiro coletivo, mas um calor humano sem tamanho.

Tínhamos um longo dia à frente. Todo em rípio. E todo dentro da Cordilheira Andina, com paisagens que não saem da minha cabeça. Florestas parecidas com nossa Mata Atlântica, rios caudalosos, largos, de águas absolutamente puras e verdes, gaúchos chilenos com seu gado e seus cavalos, tudo protegido em Parques Nacionais chilenos.

No meio desta Carretera Autral demos de cara com as termas. Paramos, tomamos banho nas águas aquecidas pelo vulcão, eu ainda dei umas braçadas no lago gelado e voltei para as águas de até 40 graus.

A fronteira, em Futalefu, no Chile, e em Los Cipreses, Argentina, fecha às 20h.

Chegamos às 19h30 no lado chileno e conseguimos passar. No fundo o tempo agiu contra pois a vontade era de ficar no lado chileno. Futalefu é uma pequena cidade turística, para amantes da Natureza, com várias atividades disponíveis, como rafting, bicicletas, trilhas etc. Lugar para voltar, com certeza.

Logo depois dos trâmites começou uma forte chuva com frio e os 30 Lm que separam a fronteira da cidade de Trevelin foram bem duros. Deixamos Tim e Bill para trás e fomos na frente descobrir um bom hotel para descansarmos do dia mais lindo e mais exaustivo da viagem.

Hospedados fomos comer uma substancial parrilla com duas garrafas de bons Malbecs.

Atraso do blog

O blog está desatualizado 3 dias. Estou quase em Buenos Aires. Como a balsa só sairá às 23h59 vou tentar colocar aqui em dia.

domingo, 18 de março de 2012

Villa Amengual

Fomos direto procurar o hospital onde Dick estava internado, em Coihaique. Os médicos tiraram raios X de sua cabeça, tórax, braços etc. Felizmente foi somente uma fratura completa de sua clavícula direita sem maiores problemas. No Canadá fará o restante do tratamento. Servi de tradutor para o registro policial necessário para o seguro e fomos atrás de um avião para levá-lo a Santiago e de lá para sua casa. Conseguimos resolver tudo até às 15h00 e retomamos a Carretera Austral.

Depois de alguns km nos deparamos com uma das barreiras de um protesto que já dura mais de 30 dias da população da Patagônia chilena. A população reclama que o presidente os abandonou. O custo de vida da região é muito mais alto que o resto do país, não tem uma universidade local etc.

Conversei bastante com os grevistas que me convidaram para entrar no acampamento e tomar um mate com eles. Só abrem a estrada meia hora pela manhã e outra meia hora à noite

Depois de mais de uma hora e meia concordaram que as motos passassem por um caminho de pedra abaixo da estrada. Mike que teve a brilhante idéia de mostrar aos grevistas que este caminho não era propriamente o objeto do bloqueio.

Quando todas as motos tinham passado, só faltava a minha, os grevistas me chamaram e disseram que eu seria o único que passaria pela barricada. Rimos um bocado, tiramos fotos com eles e partimos.

Queríamos chegar numa espécie de resort de águas quentes chamado Las Termas mas a noite, a chuva e o frio nos alcançaram e resolvemos dormir aqui, numa pequena vila.

Como em Cerro Castilho ficamos em uma pequena hospedagem da amável senhora Ira que nos preparou uma sopa de legumes com carne e um prato de arroz com frango. Deliciosos.

Tomamos umas boas cervejas na pequena sala aquecida à lenha e descobri que Tim, pai de Mike e Brendon, também gosta de filosofia e Espinoza. A noite foi memorável.

Mas choveu muito. Daqui para frente ainda teremos muito rípio. Pretendemos cruzar para a Argentina ainda hoje.