domingo, 26 de fevereiro de 2012

Saída: Sentimentos da Véspera


Véspera da partida e o coração aperta. Não só pela natural e exacerbada ansiedade de pegar a estrada como por saber que o que me possui ficará para trás e a saudade será uma eterna companheira de viagem. As pessoas, os bichos e as coisas do conforto que montamos para nós mesmos ficarão. A gente parte e esta saída monta um turbilhão em nossos sentimentos. Abaixo a musa de qualquer coisa que faço.



A estrada será a minha casa nas próximas semanas. Não sei onde vou comer, dormir, nem quais privadas vou usar. Terei frio, calor, fome, sono, medo e ela, a saudade, ao meu lado.



Há momentos que perguntamos sobre os porquês, os motivos que nos levam a sair da zona de conforto e buscar o que há fora da nossa casa (Kafka tem um conto lindo - A Toca - que diz tudo sobre nossa relação animal com o lar). É um impulso, como se fossêmos uma mola em processo de compressão que num determinado momento precisa ser liberada. Há que se respeitar essa eterna vontade de descobrir e viver imagens, lugares, pessoas, bichos e situações que não fazem parte do nosso dia-a-dia. Como diz Amyr Klink em um texto repetido ad nauseam pelos mototuristas:

 "Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”. (Amyr Klink)

Durante a preparação desta viagem, que não foi lá essas maravilhas, pensamos um bocado nas roupas que precisaremos. Teremos calores de 40 graus e frios de zero grau. Por esta razão a bagagem ficou mais complicada, mais volumosa. De outro lado um curso rápido de borracharia (gomeria em espanhol) que arrancou a pele de cima das falanges de dois dedos da minha mão direita. Mais o mínimo de mecânica da moto nova, onde estão os itens críticos, o óleo, a água do radiador, o acesso à parte elétrica e seus essenciais fusíveis, como montar e desmontar a carenagem para acessar o que for necessário mexer e pronto.

Na viagem do ano passado, com o Aldo, um mecânico de mão cheia, descobrimos uma verdade interessante confirmada em várias situações: quando aparecem problemas aparecem, também, os melhores momentos da viagem. São as horas que você precisa das pessoas e que você vê que a natureza humana, de forma geral, é acolhedora, generosa. Cada problema resolvido nos trouxe mais amigos e mais lugares vividos, não simplesmente passados na correria.



Esta viagem estava determinada em minha cabeça, assim como quero, um dia, ir até Prudoe Bay, a última cidade do Alaska. O que determinou o momento foi a visita do Carlos Escalante aqui em casa um mês atrás. Veio com a Simone trazer a filha Luísa para eu conhecer. Ela faz 2 anos agora, dia 25 de março. Uma princesinha muito linda.



Num momento qualquer, tomando uma cerveja na piscina, Carlos e eu nos provocamos como sempre fazíamos na nossa infância: "você não tem coragem de…" . Foi como em 1968 quando ele e o Marcelo Rech, meus mais antigos amigos, descobrimos como as relações fraternais mais sinceras são eternas e fundamentais. À aquela época vencemos nossos medos para escalar os morros da Urca no Rio de Janeiro, aprender a mergulhar no mar, subir nos monumentos e coqueiros da Praia Vermelha e várias que aprontávamos depois de fazer nossos deveres da escola na casa do Marcelo. Depois disso Carlos e eu conhecemos Brasília por um método diferente, pelos esgotos de águas pluviais, munidos de lanternas e canivetes. Gostávamos de abrir e subir as saídas de emergência do teto dos elevadores para andar por cima deles, desvendar a cidade de bicicleta, acampar com nossas armas de ar comprimido. Morávamos vizinhos de porta e quando não tínhamos nada mais para fazer enrolávamos toalhas nas mãos e o ringue de boxe era o pequeno hall que separava as portas de nossos apartamentos.

Carlos sempre teve moto, mas havia vendido a sua e estava sem. Na conversa na piscina falamos de Ushuaia e ele disse: "Então vamos". Os deixei no aeroporto de Viracopos no domingo à tarde e na segunda ele já estava com sua moto comprada e a data marcada para sair de Porto Alegre: 29 de fevereiro, às 13h30. Abaixo a moto comprada.



De lá para cá tem sido uma correria que animou um bocado as coisas. Depois de comprar minha nova moto fui até a academia onde nado faz cinco anos e falei para o Edmilson Basso - dono desta e mais duas academias e um novo amigo destes anos - que estava de saída para o sul. Ele tinha curtido um bocado as histórias da viagem do ano passado e tínhamos conversado que um dia faríamos alguma juntos. Edmilson deu uma volta na Transalp e nos despedimos. No outro dia fui a São Paulo me reunir com o Zé Oc,távio Scharlack e Filomena Chiarella, do restaurante Buttina, e recebo uma ligação. Era o Edmilson perguntando se eu tinha comprado uma nova bolha (retrovisor mais alto, que melhora o conforto nas viagens pois tira o vento do peito e reduz o esforço de pilotagem) para minha moto. Perguntei porquê e ele me disse: "se for comprar, compra duas, acabei de trocar minha BMW 650 por uma Transalp e vou com vocês, se me aceitarem na viagem". Assim o grupo foi formado. 

A tal mola de emoções estava comprimida demais para os três e a energia acumulada precisa ser liberada. Amanhã encontro o Edmilson às 05h00, no Posto Frango Assado da Rodovia Bandeirantes, tomamos um bom café da manhã e apontamos a proa para o Sul. Vamos até o fim do continente. Até a Terra do Fogo, a Terra do Fim do Mundo. Até a meca do motociclismo sul-americano: Ushuaia. 

Chegando em Porto Alegre faremos um churrasco com meus irmãos e amigos e quero tentar reproduzir uma foto que temos do trio de inseparáveis, quando o Marcelo Rech estava embarcando no Rio para cobrir como correspondente a primeira guerra no Iraque. Essa que vocês podem ver abaixo. (da esquerda para a direita - Carlos Escalante, eu e Marcelo Rech)



Um detalhe que merece ser contado. Carlos, Marcelo e eu conversávamos, quando nos conhecemos, sobre o que seríamos quando crescêssemos. Médicos, militares, engenheiros eram as profissões mais comentadas, exceto pelo Marcelo que dizia já naquele tempo: "Vou ser jornalista". Deu no que deu. Hoje um dos mais importantes profissionais do Brasil. Abaixo Marcelo e eu no Morro da TV em Porto Alegre, nem me lembro o ano, por volta de 1982 acho.



Para terminar este último post que faço em condições normais, com um notebook grande e o wi-fi dos vizinhos, um poema que fiz quando voltei da viagem do ano passado.

um dia você chega
de volta
porque em outro
você foi
de partida

deixou pessoas
e coisas
pensando serem suas

na volta
as coisas estão
como sempre estiveram

mas não você
a viagem transforma
teu olhar é novo

você então percebe
que não tem as coisas
elas que te possuem

ser livre
pode ser
querer se entregar

para as coisas
pelas quais
você quer voltar

3 comentários:

  1. Neco, não somos pessoas próximas...a gente se conheceu por aí, como se costuma dizer...mas eu tenho uma grande admiração pela sua pessoa! eu que viajei pouquíssimo mas que agora vou finalmente fazer uma viagem especial (vou para Espanha - terra de meus avós paternos) e sair do "conforto do cotidiano" como você diz, para poder "estar" melhor quando voltar...te desejo uma excelente viajem! abração da Cris Terribas

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    1. Valeu, Cris. Realmente viajar mexe com a gente. Fico feliz que você esteja embarcando para tuas aventuras.

      Um abraço

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  2. sem conhecer vc percebi que admira uma amizade e boa aventura. parabéns e que todos tenham boa viagem.
    Abraços para o Edmilson que é meu padrinho de casamento.

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